A casa está a aquecer, o chão do jardim começa a rachar e surge a dúvida do costume: vale a pena fazer o corte de relva antes de uma vaga de calor? Estas decisões sazonais parecem pequenas, mas mexem diretamente com o stress térmico da relva - e com a sua capacidade de aguentar dias seguidos de sol forte, vento seco e pouca água. A escolha certa pode significar um relvado que “resiste” em vez de um tapete queimado que demora semanas a recuperar.
A tentação é cortar “para ficar bonito e limpo” antes do pior. Só que, no calor, a estética pode custar caro: quanto mais baixa a relva, mais o solo fica exposto e mais depressa perde humidade.
A regra que quase sempre funciona: não raspar antes do calor
A relva não é apenas verde por cima; é um microclima. A lâmina faz sombra ao solo, reduz a evaporação e ajuda a manter as raízes mais frescas. Quando se corta demasiado baixo, aumenta-se a área exposta ao sol e o relvado entra em modo de defesa: fecha estomas, abranda o crescimento e amarela.
O objetivo antes de uma vaga de calor não é “apertar” o relvado. É dar-lhe margem para respirar e sombreamento para não fritar.
Se a vaga de calor está a 24–72 horas e o relvado está com uma altura normal, muitas vezes a melhor decisão é adiar o corte.
Quando cortar pode ajudar (e quando piora)
Há casos em que faz sentido cortar, mas com critério. A diferença está no quanto se corta e quando se faz.
Situações em que pode valer a pena cortar
- A relva está muito alta e já começa a acamar (deitar) e a ganhar fungos por falta de ar.
- Vai haver restrições de rega e quer reduzir ligeiramente a “massa” a manter, sem retirar a sombra.
- Tem zonas com espigas/sementes e quer evitar que se espalhem.
Nestas situações, um corte leve pode melhorar a ventilação e a uniformidade, sem aumentar demasiado o stress térmico.
Situações em que é melhor não tocar
- O relvado já mostra sinais de sede (folha enrolada, tom cinzento-esverdeado, pegadas que ficam marcadas).
- Está a recuperar de escarificação, ressementeira ou falhas recentes.
- Houve corte forte na última semana e a relva ainda não “fechou” bem.
Aqui, mais corte é frequentemente o empurrão que falta para aparecerem queimaduras e falhas.
Altura certa: o “corte de segurança” antes de uma vaga de calor
Se decidir cortar, pense em proteção, não em acabamento curto. Uma regra simples ajuda a não errar: nunca remover mais de 1/3 da altura num só corte. Antes de calor extremo, é prudente manter a relva um pouco mais alta do que o habitual.
Alturas orientativas (ajuste ao tipo de relva e à sua rotina):
- Relva de jardim “normal” (misturas comuns): 6–8 cm em pré-calor
- Relva mais fina/ornamental: 5–7 cm, evitando cortes baixos
- Zonas de sol direto o dia todo: suba 1–2 cm acima do costume
Quanto mais curta, mais rápido o solo aquece. E o solo quente é o atalho para raízes fracas.
Timing e gestos: como cortar sem “cozinhar” a relva
O corte também pode ser um choque físico. Faça-o como quem prepara o relvado para aguentar pancada.
Hora e condições
Evite cortar em horas agressivas. Prefira:
- De manhã cedo, com relva seca (não molhada de orvalho em excesso)
- Ao fim da tarde, quando o sol já baixou e o chão arrefeceu um pouco
Evite meio do dia: o corte expõe tecido fresco e aumenta a perda de água por evaporação.
Lâmina e técnica
- Use lâmina bem afiada: lâmina cega “rasga” e deixa pontas castanhas.
- Não faça “rapagens” para nivelar falhas: em calor, cada zona baixa vira uma mancha amarela.
- Se a relva estiver alta, faça dois cortes leves em dias separados, em vez de um corte radical.
Uma relva cortada com lâmina afiada cicatriza mais depressa e perde menos água pelas extremidades.
O que fazer logo a seguir: rega, mulching e fertilização
Depois do corte, a pergunta muda: como ajudar o relvado a atravessar os dias seguintes?
- Rega profunda e espaçada (se permitido): melhor uma rega mais abundante ao início do dia do que “pinguinhos” diários. A ideia é empurrar raízes para baixo.
- Mulching (deixar aparas finas) pode ajudar a reter humidade e proteger o solo, desde que:
- a relva não esteja demasiado alta,
- a máquina triture bem,
- não fique uma camada grossa a “abafar”.
- Evite fertilizante azotado na véspera do calor: força crescimento novo, mais sensível ao stress térmico e mais sedento.
Se quiser aplicar algo, guarde para depois da vaga de calor e foque-se em recuperação e reforço radicular.
Sinais rápidos de que a decisão foi boa (ou má)
Nos 2–4 dias seguintes, o relvado “diz” se gostou da sua escolha.
Sinais de que está a aguentar: - cor verde consistente de manhã, - folhas firmes, - pegadas a desaparecer rapidamente.
Sinais de stress térmico a subir: - tom baço/cinzento, - folha enrolada ao final da manhã, - pontas queimadas e amarelecimento irregular, sobretudo em zonas de sol.
Se isto acontecer, suspenda cortes, reduza tráfego (crianças, animais, máquinas) e privilegie regas profundas quando possível.
A decisão em uma linha: cortar, sim - mas para proteger, não para encurtar
Antes de uma vaga de calor, cortar pode valer a pena apenas se for um ajuste suave, com altura mais generosa e boa técnica. Na maioria dos jardins, o melhor “seguro” é resistir à vontade de rapar e deixar a relva um pouco mais alta para sombrear o solo e baixar o stress térmico.
FAQ:
- Devo cortar no dia anterior à vaga de calor? Só se for um corte leve, com lâmina afiada e fora das horas de maior calor. Se o relvado já está no limite de água, mais vale adiar.
- Cortar mais curto reduz a necessidade de rega? Normalmente não. A relva curta perde sombra, aquece o solo e pode precisar de mais água para não amarelar.
- Vale a pena deixar as aparas no chão? Em cortes leves, sim, pode ajudar a reter humidade (mulching). Se ficarem montes ou uma camada espessa, retire para não sufocar a relva.
- O que é pior: cortar com calor ou cortar com a relva molhada? Ambos são maus. O ideal é cortar com relva seca e temperaturas amenas (manhã cedo ou fim de tarde).
Comentários (0)
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário