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Não é dieta nem doença: a teoria polémica de que a obesidade é um “sinal social” de fracasso – e porque está a dividir especialistas e famílias.

Pessoas na mesa comendo salada, fita métrica e telemóveis ao lado.

A mãe e a filha sentam-se lado a lado na luz branca e dura da clínica, a fixar o mesmo número na balança e a ouvir duas histórias completamente diferentes.
Para o médico, é um sinal de alerta clínico.
Para a adolescente, é a prova - mais uma vez - de que ela é o “problema” no grupo de família do WhatsApp.

Na parede, um cartaz alegre lista estratégias para “gestão do peso”. No telemóvel da mãe, um médico do TikTok explica que a obesidade é uma doença do cérebro, não um fracasso moral.
E no telemóvel da filha, um vídeo viral empurra uma ideia nova e inquietante: a de que a obesidade é um sinal social de estar a perder na vida moderna.
Não um problema de dieta. Nem sequer, principalmente, uma doença. Um marcador público de fracasso.

Quando saem do edifício, a rapariga já não sabe em quem confiar: no próprio corpo, no especialista de bata branca ou no desconhecido online que a chama “sinal” num sistema avariado.
Uma coisa é clara: a disputa sobre o que a obesidade realmente significa foi muito além das calorias e das passadeiras.
E as consequências estão a aterrar diretamente nas salas de estar das pessoas.

Obesidade como “sinal social”: uma nova história brutal sobre os nossos corpos

A nova teoria soa quase feita à medida de títulos virais: obesidade, não como doença nem como escolha de estilo de vida, mas como um “sinal social de fracasso”.
O argumento é este: em sociedades que glorificam a magreza, um corpo grande transmite algo vergonhoso - falta de disciplina, baixo estatuto social, pouco autocontrolo.
O teu corpo torna-se um outdoor que as pessoas “leem” num relance, antes mesmo de falares.

Os defensores desta teoria insistem que não estão a tentar ser cruéis.
Dizem que estão apenas a descrever como a sociedade já se comporta - desde decisões de contratação a aplicações de encontros, passando pela forma como estranhos te olham num avião.
Para eles, a obesidade é menos uma falha pessoal e mais um sintoma de um sistema que prepara as pessoas para falhar e depois as castiga por exibirem uma prova visível disso.

No papel, parece “objetivo”.
Na vida real, soa a acusação.
Quando um investigador diz que a obesidade é um sinal social, milhões de pessoas ouvem uma frase mais direta: Tu és o sinal de que algo correu mal.
Para pais cujos filhos estão a lutar, para parceiros que tentam apoiar, para quem oscila entre dietas e medicação, isto toca num nervo exposto.
É aí que a teoria deixa de ser abstrata e começa a desfazer conversas.

Vejamos Jenna, 42 anos, de Manchester.
Passou a maior parte dos vinte a fazer dietas, a maior parte dos trinta grávida ou a amamentar, e a maior parte dos quarenta a ouvir duas histórias opostas sobre os seus 120 quilos: “É uma doença crónica, como a asma”, por um lado; “É um marcador de pouca força de vontade”, por outro.
Depois tropeçou num podcast que declarava a obesidade “um sinal social de estar a perder o jogo de sobrevivência moderno”.

Para ela, esta linguagem cortou mais fundo do que os habituais comentários de fat-shaming.
Não criticava apenas os snacks ou o número de passos - enquadrava a vida inteira como uma mensagem pública de baixo desempenho.
E o quê: fazer turnos noturnos, cuidar de crianças, longas deslocações, preços dos alimentos, dívida de sono?
E a medicação que lhe fez ganhar peso enquanto protegia a sua saúde mental?

Quando repetiu a ideia do “sinal social” ao almoço de domingo, a mesa dividiu-se.
O pai acenou: “Era o que eu dizia - é uma questão de escolhas.”
A irmã ficou furiosa: “Tu não és um cartaz; estás é exausta.”
Entre estas duas reações está o poder desconfortável desta teoria: ela pega no que as pessoas já suspeitam e deita gasolina em todas as discussões familiares sobre comida, saúde e responsabilidade.

Os investigadores que promovem a moldura do “sinal social” dizem que estão apenas a dar nome a uma verdade feia.
Apontam que, em muitos países de alto rendimento, a obesidade é estatisticamente mais comum em comunidades mais pobres, com menos acesso a parques seguros, cuidados de saúde decentes e alimentos frescos a preço acessível.
Os empregadores, dizem eles, sabem isto - e julgam os corpos em conformidade, mesmo que nunca o admitam.

Na perspetiva deles, o peso torna-se uma abreviatura de tudo o resto que te rodeia: educação, stress, trabalho por turnos, trauma, tempo, dinheiro.
O corpo carrega tudo isso, visivelmente.
Assim, quando chamam à obesidade um sinal social, querem dizer uma história comprimida sobre vidas desiguais, escrita em carne em vez de tinta.

O problema é que, quando uma ideia destas sai da academia e chega às redes sociais, a nuance evapora.
O que começou como “um sinal de estruturas sociais” depressa se transforma em “prova de que falhaste onde outros tiveram sucesso”.
A mesma expressão que podia ter servido para defender políticas mais justas acaba por ser usada como arma em caixas de comentários e conversas de família.
É assim que uma teoria nascida em conferências acaba a moldar silenciosamente a forma como uma adolescente se vê ao espelho.

Dentro do campo de batalha familiar: culpa, culpa atribuída e pequenos atos de resistência

A história do “sinal social” não fica presa em relatórios de think tanks.
Entra em momentos do dia a dia: a sobrancelha levantada de um avô perante uma segunda dose, a sugestão silenciosa de um parceiro para “andar mais”, o conselho apressado de um médico comprimido numa consulta de sete minutos.
As famílias já carregam décadas de comentários carregados sobre corpos.
Esta nova teoria dá a esses comentários uma lâmina mais afiada e um novo vocabulário.

Num grupo de WhatsApp em Lyon, três irmãos discutem o que fazer em relação à mãe.
Ela tem diabetes, dificuldades de mobilidade e ganhou mais peso recentemente depois de lhe terem receitado uma nova medicação.
Um irmão partilha um artigo a defender que a obesidade é uma doença “do cérebro e do ambiente”.
Outro envia uma thread a chamar-lhe “um marcador visível de estar a perder na economia moderna”.

A irmã, que ainda se lembra de todas as dietas a que foi obrigada em criança, lê ambos e escreve devagar: “Ela não é um símbolo. É a nossa mãe.”
Essa resposta fica no chat como um pequeno ato de rebelião.
Não contra a ciência, mas contra a forma como certas palavras reduzem pessoas a estudos de caso ou avisos públicos.
Sente-se a tensão: querer proteger a saúde de alguém, e ter medo de voltar a magoá-la.

À escala maior, o que está em jogo é brutalmente real.
Médicos que rejeitam a moldura do “sinal social” receiam que ela alimente um estigma que literalmente mata, ao empurrar pessoas a evitar consultas até ser tarde demais.
Outros temem que, se abandonarmos toda a conversa sobre responsabilidade, os decisores políticos encolham os ombros e continuem a inundar as famílias mais pobres com alimentos ultraprocessados.
Alguns ativistas dizem que chamar à obesidade um sinal de fracasso apenas repete a velha moralização, com um sotaque mais intelectual.
Outros defendem que fingir que o peso não tem qualquer significado social é puro pensamento desejoso.

Entretanto, dentro de casas reais, a pergunta não é “Qual teoria está certa?”
É “Como é que falamos disto sem nos destruirmos uns aos outros?”
Por detrás dos slogans há longas noites de comer em silêncio, bilhetes zangados no frigorífico, miúdos a esconder embalagens, pais a chorar no carro depois de mais um e-mail da escola a dizer “estamos preocupados com o peso dele/dela”.
A ciência pode ser complexa. A dor não é.

Como navegar esta teoria sem destruir as suas relações

Então, o que pode fazer, na prática, quando esta ideia do “sinal social” começa a infiltrar-se nos seus pensamentos ou conversas?
Um passo útil: separar descrição de julgamento.
Pode reconhecer que o peso é lido socialmente sem transformar alguém que ama num símbolo ambulante de fracasso.

Tente começar com perguntas em vez de afirmações.
“O que é que está a tornar a vida mais difícil agora?” abre uma porta diferente de “Temos de fazer alguma coisa em relação ao teu peso.”
Se é a pessoa no corpo maior, tem o direito de definir regras: “Podemos falar da minha saúde, mas não de eu ser ‘sinal’ de seja o que for.”
Esse pequeno limite muda todo o ambiente da sala.

Outro movimento concreto: mudar o foco do tamanho do corpo para o atrito do dia a dia.
É dor? Falta de ar nas escadas? Exaustão depois do trabalho?
Atacar isso parece menos um exame moral e mais resolver problemas em conjunto.
Não está a tentar corrigir um sinal; está a tentar aliviar uma vida.

As pessoas perguntam muitas vezes: “Como falamos de obesidade sem envergonhar?”
Um ponto de partida é reparar em que palavras soam a arma.
Chamar ao corpo de alguém um “sinal de aviso” ou um “fracasso” não incentiva mudança; bloqueia-a.
Ouvir primeiro, comentar depois - ou não comentar - é uma disciplina que muitas famílias nunca aprenderam.

No plano prático, esteja atento a três armadilhas comuns nas conversas de família.
Primeira: transformar o corpo de uma pessoa no projeto da família.
Segunda: usar linguagem médica como disfarce para preconceitos antigos.
Terceira: fingir que é tudo “pela saúde” quando o que realmente incomoda é a aparência.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias - manter-se perfeitamente consistente, sábio e gentil em todas as conversas - mas pode dar por si mais vezes do que antes.

A nutricionista e investigadora Dra. Maya Tan diz-o sem rodeios:

“Quando chamamos à obesidade um sinal social de fracasso, na maioria das vezes estamos a sinalizar o nosso próprio medo de sermos vistos como fracassos. O corpo é apenas o ecrã onde o projetamos.”

Esta perspetiva pode doer, mas abre uma pequena janela de misericórdia.
Em vez de perguntar “O que é que este corpo diz sobre eles?”, pode perguntar “O que é que a minha reação diz sobre mim - e sobre o mundo que absorvi?”
Se precisar de uma âncora simples, guarde esta lista curta onde a vá realmente ver:

  • Fale de experiências, não de rótulos.
  • Pergunte como é que o apoio deve ser, não adivinhe.
  • Lembre-se de que o peso é influenciado por biologia, dinheiro, tempo e stress.
  • Recuse reduzir uma pessoa inteira a um “sinal”.
  • Proteja primeiro as relações; as teorias podem esperar.

Quando os corpos se tornam campos de batalha, quem é que realmente perde?

A disputa sobre se a obesidade é um problema de dieta, uma doença ou um “sinal social” não é apenas académica.
Ela molda que medicamentos são financiados, que alimentos são baratos, que corpos recebem simpatia e que corpos recebem revirar de olhos.
Também dita, em silêncio, como julgamos estranhos no autocarro, colegas no escritório e até as pessoas que dizemos amar mais.

Já vivemos a era das dietas milagrosas e dos desafios de fitness movidos a vergonha.
Agora entramos numa fase em que os argumentos vêm embrulhados em gráficos e exames ao cérebro, vestidos de ciência neutra - mas ainda carregados de séculos de pânico moral em relação à gordura.
A linguagem ficou mais inteligente.
As feridas, muitas vezes, parecem as mesmas.

Um caminho em frente pode ser aceitar uma verdade confusa: a obesidade pode ser muitas coisas ao mesmo tempo.
Uma condição médica.
Um resultado de marketing incessante e calorias baratas.
Uma estratégia de sobrevivência num sistema nervoso em stress.
Um alvo de julgamento social em culturas obcecadas com a magreza.
Tentar esmagar tudo isso numa única palavra - “fracasso”, “doença” ou “sinal” - achata vidas reais em slogans.

Numa noite tranquila, longe das salas de consulta e das caixas de comentários, imagine as pessoas da sua vida cujos corpos não correspondem à versão de folheto da saúde.
Pense nos momentos em que as viu rir, trabalhar, cuidar, tentar de novo depois de mais um contratempo.
Pergunte a si próprio que história sobre o corpo delas o ajuda a cuidar melhor - e que história apenas o faz sentir superior ou com medo.

A nova teoria vai continuar a ser tendência.
Os especialistas vão continuar a debater.
As famílias vão continuar a discutir em cozinhas e carros onde nenhum investigador toma notas.
O que continua sob o seu controlo é a história que escolhe acreditar sobre o que um corpo maior “sinaliza” - e se trata essa história como arma ou como motivo para construir algo mais gentil do que aquilo com que crescemos.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Obesidade como “sinal social” Enquadra o peso como um marcador visível de dificuldades sociais e económicas, não apenas de força de vontade Ajuda a decifrar porque é que os corpos são julgados antes de as pessoas falarem
Impacto nas famílias A teoria alimenta culpa, culpabilização e conversas dolorosas em casa Permite aos leitores reconhecer e desarmar conflitos familiares comuns
Mudanças práticas na comunicação Foco em experiências, limites e apoio em vez de rótulos Dá formas concretas de falar sobre peso sem destruir relações

FAQ

  • A obesidade é mesmo um “sinal social” de fracasso?
    Pode ser tratada assim pela sociedade, mas isso não significa que reflita um fracasso moral ou pessoal; revela sobretudo quão desiguais e julgadores são os nossos sistemas.
  • Esta teoria substitui a ideia de obesidade como doença?
    Não. Muitos especialistas continuam a ver a obesidade como uma condição crónica complexa, influenciada por biologia, ambiente e comportamento; a ideia do “sinal” é uma camada extra - e controversa.
  • Falar da obesidade como sinal pode ajudar a mudar políticas?
    Talvez, se destacar causas sociais como a pobreza e os “desertos alimentares”, mas também pode aumentar a culpabilização se for usada de forma descuidada.
  • Como falo com alguém de quem gosto sobre peso sem o/a magoar?
    Pergunte do que precisa, foque-se em como se sente no dia a dia e evite transformar o corpo numa bandeira ou num projeto de família.
  • E se eu acreditar que o peso importa para a saúde, mas odiar o estigma?
    Pode sustentar as duas coisas: preocupar-se com indicadores de saúde e rejeitar a vergonha; isso implica conversas respeitosas e com consentimento, e lutar por acesso justo a cuidados, não por sermões morais.

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